Imagine uma investigação criminal. Alguém foi assassinado. Uma das testemunhas disse que o culpado era Roberto, mas o investigador tinha certeza que não, pois conhecia Roberto de longa data e sabia que era boa pessoa. No final, prenderam um inocente e Roberto continuou solto.
O investigador foi incapaz de desvendar o caso, pois partiu de um pressuposto equivocado. Ele cresceu acreditando que Roberto era uma boa pessoa, e por isso era inconcebível, para ele, considerar a possibilidade dele ser um assassino. Para ele ter descoberto o criminoso de forma inequívoca, ele teria que desconsiderar todos os seus pressupostos, todas as suas crenças pessoais, só assim ele poderia considerar Roberto um suspeito e conduzir a investigação corretamente.
Acontece que a verdade só pode ser descoberta quando consideramos todas as possibilidades, e para isso temos primeiramente que esquecer as nossas crenças particulares, pois tais crenças limitam nossa visão e eliminam possibilidades que podem ser as corretas. Voltando para a parábola do crime, o investigador não teve maturidade para discernir a questão pessoal da profissional, não conseguiu se distanciar da situação para analisá-la numa perspectiva externa.
Qual a moral da estória? Que, em uma investigação, temos que ignorar ou abandonar os pressupostos de natureza dogmática, caso contrário correremos risco de não chegar às conclusões corretas. Para entender essa questão, vamos ao significado de dogma no Dicionário Michaelis:
1 Ponto ou princípio fundamental de uma doutrina religiosa, apresentado como verdade inquestionável e que, como tal, deve ser aceito por aqueles que a professam.
2 Qualquer doutrina (religiosa, política, filosófica etc.) sustentada por princípios indiscutíveis e que devem, portanto, ser aceitos por todos como expressão da verdade.
3 Preceito estabelecido; opinião dada como certa, máxima.
A partir do momento que alguém tenta fazer a exegese de uma escritura religiosa sem deixar de lado os preceitos dogmáticos que ela/ele aprendeu a crer, essa pessoa não vai poder considerar todas as possibilidades. Um exemplo simples que nos deparamos todos os dias é: pessoas que creem que a Bíblia é um livro coeso e perfeito, sem contradições e principalmente que é um livro original. A Bíblia, como já comentei em outra postagem, originalmente não é um livro, mas um conjunto de escrituras que foram escritos por diversos autores em diferentes épocas e contextos sócio-culturais. Esses autores muitas vezes tinham visões diferentes sobre algum tema. Isso fica bem claro quando fazemos uma leitura horizontal dos evangelhos canônicos, comparando como um fato é narrado diferentemente por cada autor. Além disso, essas escrituras são relatos histórico-fantasiosos, onde às vezes é difícil discernir o que podemos considerar ou não como real. O que, para os crentes é a mais pura verdade, para indivíduos de outras crenças é apenas mitologia. Mitologia, para essas pessoas, é apenas a crença alheia, pois eles estão cheios de certeza que, dentre diversas doutrinas religiosas, dentre inúmeras mitologias, dentre diversos panteões, o deles é o único correto. Elas foram tão condicionadas a acreditar naquilo que acabam dependendo dessas crenças, pois abandoná-las traria-lhes uma verdadeira crise existencial.
Para qualquer pessoa razoável, é difícil acreditar que a humanidade surgiu de um golem de barro (Adão). Também é complicado acreditar que uma arca tenha sido usada para abrigar todos os animais do mundo. Ou acreditar na jumenta falante de Balaão. Entretanto, aqueles que creem cegamente não conseguem sequer considerar a possibilidade dessas estórias serem fantasiosas, mitos que compõem a mitologia judaica. Cada cultura ancestral construiu sua própria cosmogênese, seus próprios mitos. Os hindus o fizeram, os ameríndios, os chineses etc. Com os judeus não seria diferente.
Mas se as estórias presentes na Bíblia são um misto de relatos históricos e fantasias mitológicas, como descobrir a verdadeira história por detrás das escrituras? Para isso nós temos o Método Histórico-Crítico. Vamos para a definição:
O Histórico-Criticismo, também conhecido como Método Histórico-Crítico ou Alto Criticismo ("Higher Criticism"), é um ramo da crítica que investiga as origens dos textos antigos a fim de compreender "o mundo por trás do texto". Embora frequentemente discutida em termos de escritos judeus e cristãos dos tempos antigos, o MHC também tem sido aplicado a outros escritos religiosos e seculares de várias partes do mundo e períodos da história. O objetivo principal da crítica histórica é descobrir o significado primitivo ou original do texto em seu contexto histórico original e seu sentido literal ou "sensus literalis historicus". O objetivo secundário procura estabelecer uma reconstrução da situação histórica do autor e dos destinatários do texto. Isso pode ser feito reconstruindo a verdadeira natureza dos eventos que o texto descreve (Wikipédia, tradução livre).
O Histórico-criticismo tem a ver com investigação histórica, análise e conclusões através do pensamento crítico, não tem absolutamente nenhuma relação com fé ou dogma. Quem realmente foi Jesus: um semideus, um avatar de Deus ou um profeta judeu que foi crucificado por ter questionado os dogmas e transgredido as leis judaicas? O que os textos originais têm a nos dizer sobre isso? O que uma investigação histórica poderia revelar? E que conclusões podemos chegar ao usar o pensamento crítico?
Paz.