27/10/2020

Migração

Devido à recente censura que venho recebendo do Facebook para compartilhar o link do blog, estou migrando para o seguinte endereço:

https://write.as/evangelhoscoincidentes/

22/10/2020

Método Histórico-Crítico

Imagine uma investigação criminal. Alguém foi assassinado. Uma das testemunhas disse que o culpado era Roberto, mas o investigador tinha certeza que não, pois conhecia Roberto de longa data e sabia que era boa pessoa. No final, prenderam um inocente e Roberto continuou solto.
O investigador foi incapaz de desvendar o caso, pois partiu de um pressuposto equivocado. Ele cresceu acreditando que Roberto era uma boa pessoa, e por isso era inconcebível, para ele, considerar a possibilidade dele ser um assassino. Para ele ter descoberto o criminoso de forma inequívoca, ele teria que desconsiderar todos os seus pressupostos, todas as suas crenças pessoais, só assim ele poderia considerar Roberto um suspeito e conduzir a investigação corretamente.
Acontece que a verdade só pode ser descoberta quando consideramos todas as possibilidades, e para isso temos primeiramente que esquecer as nossas crenças particulares, pois tais crenças limitam nossa visão e eliminam possibilidades que podem ser as corretas. Voltando para a parábola do crime, o investigador não teve maturidade para discernir a questão pessoal da profissional, não conseguiu se distanciar da situação para analisá-la numa perspectiva externa.
Qual a moral da estória? Que, em uma investigação, temos que ignorar ou abandonar os pressupostos de natureza dogmática, caso contrário correremos risco de não chegar às conclusões corretas. Para entender essa questão, vamos ao significado de dogma no Dicionário Michaelis:

1 Ponto ou princípio fundamental de uma doutrina religiosa, apresentado como verdade inquestionável e que, como tal, deve ser aceito por aqueles que a professam.
2 Qualquer doutrina (religiosa, política, filosófica etc.) sustentada por princípios indiscutíveis e que devem, portanto, ser aceitos por todos como expressão da verdade.
3 Preceito estabelecido; opinião dada como certa, máxima.

A partir do momento que alguém tenta fazer a exegese de uma escritura religiosa sem deixar de lado os preceitos dogmáticos que ela/ele aprendeu a crer, essa pessoa não vai poder considerar todas as possibilidades. Um exemplo simples que nos deparamos todos os dias é: pessoas que creem que a Bíblia é um livro coeso e perfeito, sem contradições e principalmente que é um livro original. A Bíblia, como já comentei em outra postagem, originalmente não é um livro, mas um conjunto de escrituras que foram escritos por diversos autores em diferentes épocas e contextos sócio-culturais. Esses autores muitas vezes tinham visões diferentes sobre algum tema. Isso fica bem claro quando fazemos uma leitura horizontal dos evangelhos canônicos, comparando como um fato é narrado diferentemente por cada autor. Além disso, essas escrituras são relatos histórico-fantasiosos, onde às vezes é difícil discernir o que podemos considerar ou não como real. O que, para os crentes é a mais pura verdade, para indivíduos de outras crenças é apenas mitologia. Mitologia, para essas pessoas, é apenas a crença alheia, pois eles estão cheios de certeza que, dentre diversas doutrinas religiosas, dentre inúmeras mitologias, dentre diversos panteões, o deles é o único correto. Elas foram tão condicionadas a acreditar naquilo que acabam dependendo dessas crenças, pois abandoná-las traria-lhes uma verdadeira crise existencial.
Para qualquer pessoa razoável, é difícil acreditar que a humanidade surgiu de um golem de barro (Adão). Também é complicado acreditar que uma arca tenha sido usada para abrigar todos os animais do mundo. Ou acreditar na jumenta falante de Balaão. Entretanto, aqueles que creem cegamente não conseguem sequer considerar a possibilidade dessas estórias serem fantasiosas, mitos que compõem a mitologia judaica. Cada cultura ancestral construiu sua própria cosmogênese, seus próprios mitos. Os hindus o fizeram, os ameríndios, os chineses etc. Com os judeus não seria diferente.
Mas se as estórias presentes na Bíblia são um misto de relatos históricos e fantasias mitológicas, como descobrir a verdadeira história por detrás das escrituras? Para isso nós temos o Método Histórico-Crítico. Vamos para a definição:

O Histórico-Criticismo, também conhecido como Método Histórico-Crítico ou Alto Criticismo ("Higher Criticism"), é um ramo da crítica que investiga as origens dos textos antigos a fim de compreender "o mundo por trás do texto". Embora frequentemente discutida em termos de escritos judeus e cristãos dos tempos antigos, o MHC também tem sido aplicado a outros escritos religiosos e seculares de várias partes do mundo e períodos da história. O objetivo principal da crítica histórica é descobrir o significado primitivo ou original do texto em seu contexto histórico original e seu sentido literal ou "sensus literalis historicus". O objetivo secundário procura estabelecer uma reconstrução da situação histórica do autor e dos destinatários do texto. Isso pode ser feito reconstruindo a verdadeira natureza dos eventos que o texto descreve (Wikipédia, tradução livre).

O Histórico-criticismo tem a ver com investigação histórica, análise e conclusões através do pensamento crítico, não tem absolutamente nenhuma relação com fé ou dogma. Quem realmente foi Jesus: um semideus, um avatar de Deus ou um profeta judeu que foi crucificado por ter questionado os dogmas e transgredido as leis judaicas? O que os textos originais têm a nos dizer sobre isso? O que uma investigação histórica poderia revelar? E que conclusões podemos chegar ao usar o pensamento crítico?

Paz.

04/10/2020

Mateus em Hebraico?

Segue abaixo uma tradução livre do que Ehrman escreveu sobre a suposta origem hebraica do Evangelho Segundo Mateus, em seu livro "The Apocryphal Gospels":

"A opinião de que Mateus foi originalmente escrito em hebraico é muito antiga, remontando pelo menos ao início do segundo século. O pai proto-ortodoxo Papias, cujas obras também são preservadas apenas em citações de escritores posteriores, escreveu uma obra de cinco volumes conhecida como as Interpretações dos Provérbios do Senhor, na qual ele indica que Mateus compôs os dizeres [de Jesus] na língua hebraica, e cada um os interpretou [ou traduziu] ao melhor de sua capacidade. Tradicionalmente, isto tem sido usado para indicar que o primeiro evangelho apareceu pela primeira vez em hebraico. Uma leitura mais próxima da citação de Papias (preservada em Eusébio), no entanto, sugere que ele não estava falando de nosso Evangelho de Mateus - - ou que, se estava, não sabia realmente sobre as origens e o caráter do livro. Nosso Evangelho de Mateus é muito mais do que as palavras de Jesus; e quase certamente não foi escrito originalmente em hebraico: ele toma emprestado verbatins de Marcos, por exemplo, uma fonte que foi escrita em grego. No entanto, os pais da igreja após Papias presumiram que ele estava falando de nosso Mateus, e concluíram que, como este livro foi escrito em hebraico, deve ter sido o Evangelho de escolha entre os cristãos que continuaram a manter fidelidade às leis e costumes judaicos. E assim qualquer tradição evangélica que parecesse derivar de um Evangelho 'judaico' foi pensada como tendo vindo desta forma hebraica de Mateus - ou uma redação posterior dela que incorporou ainda mais plenamente as idéias e preocupações judaicas."

Certamente, o Evangelho de Mateus não é composto somente por dizeres (ou ensinamentos, como também pode ser traduzida a palavra "logia"). Ele contém a mais longa narrativa dos evangelhos canônicos. Para efeito de comparação, um evangelho composto somente de dizeres é o atribuído a Tomé.
A respeito do que Papias escreveu, partindo do pressuposto dos cinco livros terem de fato existido e de Eusébio ter copiado corretamente, podemos deduzir algumas possibilidades:

1. Papias realmente estava se referindo ao Evangelho Segundo Mateus;
2. Papias não estava se referindo ao evangelho supracitado;

O problema da primeira hipótese é que o Evangelho Segundo Mateus não é composto somente pelos dizeres de Jesus. Para comparação, vejamos o que Papias escreveu sobre o Ev. Seg. Marcos:

"Marcos, em sua qualidade de intérprete de Pedro, escreveu com exatidão tantas coisas quanto se lembrava da memória -- embora não de forma ordenada -- das coisas ditas ou feitas pelo Senhor. Pois ele não ouviu o Senhor nem o acompanhou (...)"

"Coisas ditas ou feitas" é bem diferente de somente "os dizeres". O outro problema dessa hipótese é que é praticamente um consenso entre os acadêmicos que o Evangelho Segundo Mateus foi composto originalmente em grego, não em hebraico (nem em aramaico e nem em siríaco). Simplesmente não existem evidências que suportem essa possibilidade.
Na segunda hipótese, se Papias não estava se referindo ao texto que conhecemos hoje por Evangelho Segundo Mateus, ele estava se referindo a outro texto. É sabido que nos primeiros séculos existiam vários cultos e seitas cristãs primitivas que usavam diversos textos. Muitos deles não foram incluídos na Bíblia e são chamados de apócrifos, pois a Igreja Católica decidiu que eram textos heréticos. Isso ocorreu em 393 d.C., no Concílio de Hipona. 
É possível que Papias estava se referindo a algum desses textos que não tenha sobrevivido aos nossos tempos? Se sim, será que esse texto possui relação com algum dos Evangelhos de Mateus que foram compostos em hebraico a partir do século II d.C (Evangelho dos Hebreus, Evangelho dos Ebionitas e Evangelho dos Nazarenos)? Ou até com o Evangelho dos Hebreus de Shem Tob, um texto rabínico do século XIV d.C.? A primeira possibilidade é improvável, pois diversos estudiosos apontaram que as citações dos Pais da Igreja dos evangelhos dos hebreus provavelmente são de textos em hebraico que foram traduzidos do grego. Já sobre a possibilidade da relação dos dizeres de Jesus em hebraico com algum dos evangelhos de Mateus da Idade Média, como o Mateus de Shem Tob ou de Du Tillet, provavelmente não mereça nossa atenção, pois os textos sobreviventes foram compostos após mais de um milênio após a vida de Jesus. Se eles são transcrições de textos antigos, já foram tão modificados pelos copiadores (intencionalmente ou por erro de glosa) que possuem mais importância no estudo da visão rabínica sobre o Cristianismo do que no estudo sobre os textos cristãos primitivos. 

25/09/2020

Fragmento 7Q5

Entre os Manuscritos do Mar Morto, 7Q5 é a designação de um pequeno fragmento de papiro grego descoberto na Caverna de Qumran 7 e datado de antes que alguém alegasse ser capaz de identificá-lo por seu estilo de escrita como provavelmente tendo sido escrito entre 50 a.C. e 50 d.C. O significado deste fragmento deriva de um argumento feito pelo papirólogo espanhol José O'Callaghan na sua obra "¿Papiros neotestamentarios en la cueva 7 de Qumrân?" ("New Testament Papyri in Cave 7 at Qumran?") em 1972, mais tarde reafirmado e expandido pelo estudioso alemão Carsten Peter Thiede na sua obra "The Earliest Gospel Manuscript?" em 1982. A afirmação é que o 7Q5, anteriormente não identificado, é na realidade um fragmento do Evangelho de Marcos, capítulo 6 versículo 52-53. Alguns estudiosos não foram convencidos pela identificação de O'Callaghan e Thiede, insistindo que é "agora virtualmente rejeitada universalmente". Mais recentemente, outros estudiosos afirmam que a identificação de O'Callaghan do 7Q5 é amplamente aceita como correta (Wikipédia, tradução nossa). 

Se a datação do fragmento 7Q5 estiver correta e se realmente se tratar de um trecho do Evangelho Segundo Marcos, podemos fazer quatro deduções:
- Ele passa a ser o manuscrito mais antigo já encontrado do NT, sendo anterior ao P52, que fica em segundo lugar;
- Reforça ainda mais a hipótese de Marcos ser anterior a Mateus, como diversos estudiosos já têm afirmado;
- Dá mais força à Primazia Grega, teoria que diz que os textos originais dos evangelhos canônicos foram escritos em grego, não em hebraico, nem siríaco, nem aramaico;
- Com essa datação, Marcos foi escrito por um contemporâneo de Jesus que pode inclusive ter sido uma testemunha ocular.

18/09/2020

Bíblia, uma Antologia

Os evangelhos, assim como todos os outros livros da Bíblia, não foram escritos na intenção de serem compilados posteriormente. Cada livro conta uma estória. A Bíblia, em si, é uma antologia, uma coletânea de livros que foi construída pelo Cristianismo Majoritário (que viria a formar o Catolicismo), séculos depois da morte dos escritores dos evangelhos. 
Na verdade, a ideia inicial de construir uma antologia do que conhecemos hoje como livros do Novo Testamento foi de Marcião, discípulo de Paulo de Tarso. 
Portanto, querer costurar a narrativa dos quatro evangelhos canônicos e construir uma narrativa somando todos os eventos é um equívoco em que muitos caem.

04/09/2020

Índice por Tema

Segue abaixo um índice temático de passagens dos evangelhos canônicos e do Evangelho Segundo Tomé. Pode ser muito útil para quem deseja fazer uma leitura horizontal/transversal dos evangelhos.

Ainda necessita de uma revisão; também pretendo construir uma tabela para melhor visualização.

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01/09/2020

A Riqueza

A Bíblia é uma antologia de textos tão heterogêneos que pode ser usada para estribar praticamente qualquer ideologia. Mas nos evangelhos conseguimos ter uma visão relativamente clara sobre o pensamento de Jesus sobre o dinheiro e a riqueza:

Tomé: 54, 63, 78, 81, 95, 110;

Mateus: 6:19, 11:7, 19:16;

Marcos: 10:17;

Lucas: 12:16, 18:18, 18:24.

29/08/2020

Evangelho Segundo Tomé

O Evangelho Segundo Tomé: uma abordagem coincidente

O presente trabalho é uma tradução do Evangelho Segundo Tomé para o português brasileiro. Para tal feito, foram usados textos em inglês que são traduções diretas dos textos antigos em copta e grego: Lambdin (2012) e Grondin (2002) são traduções da língua copta, enquanto Fitzmyer (1959), Grenfell (1904) e Layton (2003) são traduções dos fragmentos em grego antigo.

Utilizei do que chamo de “critério de coincidência”, onde é mantido somente o texto que coincide nas diferentes versões. Assim, todo o texto que está presente somente na versão copta ou somente na versão grega foi eliminado, a não ser que haja uma razão clara para determinado trecho ter sido removido. Nos trechos coincidentes, foi mantida a versão em grego, por provavelmente ser mais antiga. Nos trechos coincidentes que apresentam algumas palavras divergentes, também foi mantida a versão em grego, pela mesma razão.

Este trabalho ainda está em progresso, portanto está sujeito a futuras edições e alterações, assim como correções gramaticais.

Acessar o texto.